
Todo Respeito!...
(ou Um Santo Homem!...)Malandro que era malandro
sabia brigar...
Dava rasteira, bico, pernada,
derrubava meia dúzia
só no vento da porrada, -
sem deixar cair o chapéu
ou macular com sangue
o pisante e o terno branco.
Malandro que era malandro
era rei no cara a cara!...
Um bamba em seu pedaço,
um mestre na navalha, -
deusa, paixão em aço,
fio que não se perdia...
O bom malandro bronqueava,
engrupia, despistava...
Mas não mandava recado!
Dedo-duro não se criava...
Era logo apresentado
à tal lâmina lustrosa,
sua jóia mais preciosa...
Um tremendo vivaldino,
bordejava, livre, pelas quebradas...
dono e senhor de destinos...
Cabrochas nunca lhe faltaram,
que o danado era manhoso,
perfumado, carinhoso, -
um tremendo bico-doce!
Era riscar um sambinha
na inocente caixinha
e acender a mulherada
pra virar a madrugada
em meio aos pandeiros
no cio...
E quando o malandro passava
com o seu jeitão lustroso,
altivo e escorregadio
no seu passo flutuante,
entre o firme e o cambaleante, -
molejo arrogante de macho -,
relógio e cordão de ouro,
não havia quem não olhasse...
Ele era o tal,
o bamba,
era, sim, de virar a cabeça...
Uma lenda viva a passar...
Quem deixaria de olhar?!
Até o homem do realejo
parava de tocar...
As viúvas encaravam;
as solteiras casadouras
disfarçavam a mirada;
as casadas, de soslaio;
e os homens, preocupados,
a sacudir-lhes os braços
e a exigir que elas
olhassem para o outro lado...
Malandro era malandro
na zona, na favela, no subúrbio;
malandro era malandro
em qualquer lugar, -
um homem de decisão,
um homem com um super agá...
que sabia o trabalho que dava
viver sem trabalhar...
Um homem de muito respeito!...
Hoje não há malandros
como os malandros de outrora...
A espécie está quase extinta...
E os que ainda estão vivos
ficam muito putos da vida
quando um bandido qualquer
é chamado de malandro...
- Nem sabem o que é malandragem!...Malandro que era malandro
sempre teve suas regras...
Malandro nasceu malando,
viveu malandro,
e vai morrer malandro...
Sem pedir licença,
tapear a triagem,
dar um bico no inferno
e ganhar o céu...
Animar a casa;
bordejar com asas...
Fazer juz à identidade
e pendurar a conta
na eternidade, -
Documento de malandro
sempre foi o seu prazer,
o seu talento
para a malandragem...
ju rigoni (2000)
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Dormentes.
ju rigoni escreveu. Publicado às 4:18 PM |
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