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17/03/2009

Garoto de Ipanema



Ele acha que é classe A. Porque mora num dos mais bem (?) frequentados bairros da Zona Sul do Rio de Janeiro. Ricardinho veste as melhores grifes, bebe nos bares da moda, malha na academia da hora. Fala oi! para muitos artistas quando corre no calçadão. Tem muitos cartões de crédito. Troca de carro todo ano. Já foi algumas vezes a Europa, Miami, Nova York... Não. Ricardinho não puxa fumo. É coisa de baixa renda! Prefere cafungar. Com o excelente salário que recebe da multinacional, Ricardinho já poderia ser dono de um ou dois imóveis. Não em Ipanema, - um dos metros quadrados mais caros do Rio de janeiro, quiçá do mundo, mas talvez no Catete, na Tijuca, na Glória... Ao invés disso, para ver através da janela do seu apartamento um pedacinho da vista do mar mais cara do país, Ricardinho paga um aluguel semelhante a uma prestação de (uma boa) casa própria e torra o dinheiro sem nenhuma preocupação que não seja investir em sua imagem de menino do Rio bem-sucedido.

A empresa onde trabalha já sabe que Ricardinho cafunga no banheiro. Não por acaso ele é sempre o mais acordado e bem disposto nas reuniões matinais de diretoria. Gesticula muito e às vezes até levanta-se e fica dando voltas em torno da mesa de reuniões enquanto expõe seus pontos de vista. Há sorrisos fora de lugar, e qualquer contestação é rebatida com reações que beiram uma certa violência. Ricardinho extrapola. E extrapola-se. Resultado: o classe média de Ipanema recebe o famoso bilhete azul.

Segue-se àquele uma ordem de despejo. Escreve para os pais, com quem vivia no interior antes de mudar-se para o bairro dos sonhos, pedindo ajuda para colocar o aluguel em dia. Os pais negam, é claro! Teriam que vender quase tudo que possuem para cobrir a dívida do rebento. O condomínio não vê a cor do seu dinheiro há cerca de cinco meses. O apartamento está uma bagunça. Ultimamente ele não tem tido grana para bancar uma faxineira. O carro quase não sai da garagem, e ele já pensa em vender para saldar algumas dívidas. A moto também. E o barco. A geladeira está cheia. De espaço. A cama vazia. As namoradas sumiram como por encanto. As agências de turismo entupiram sua caixa de correio com boletos de cobrança das prestações atrasadas de suas últimas viagens. Todos (e não são poucos) os cartões de crédito estão bloqueados por falta de pagamento. Por enquanto vive no e do limite do cheque especial. Alguns traficantes estão na sua cola porque ele anda falando demais. Sem grana para pagar um guarda-costas, o atual segurança de Ricardinho não tem um nome, mas um número: 38.

Suas noites têm sido bem diferentes. Às 22 horas já está vestido, prontinho para dividir com outros garotos e garotas "de Ipanema" alguns metros quadrados das calçadas de um outro bairro famoso, Copacabana, se oferecendo como programa imperdível. De vez em quando sai com homens, de quando em vez com mulheres, - que pagam em dólar o prazer de desfrutar seu corpo bem definido e sua companhia nem tanto. O inglês fluente que o destacava dos demais executivos da empresa agora lhe serve para obter programas mais rendosos com turistas do mundo inteiro. Não tem sido muito agradável enfrentar homens e mulheres, - algumas vezes homens e homens, outras mulheres e mulheres -, quase sempre já idosos, com mau-hálito, carnes flácidas, vícios nauseantes e DSTs, mas Ricardinho precisa sobreviver.

É... As coisas estão mesmo muito difíceis para Ricardinho. E ele está tentando abrir mão de tudo. Até de cafungar. Mas de morar em Ipanema... Nem pensar!...

ju rigoni (2004)

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13/10/2008

OVNI?...

Ainda era madrugada quando os quatro amigos entraram no carro para vencer os quarenta quilômetros da estrada de barro sem qualquer iluminação que separa a fazenda onde passaram o fim de semana da estrada principal. Estava muito escuro e João ligou o farol alto. Devagar e aos trancos, devido aos buracos provocados pelas chuvas da semana anterior, conduzia o veículo com muito cuidado para evitar possíveis danos. Os demais ocupantes, sonolentos, acomodavam-se para tentar dormir um pouco mais.

Haviam percorrido cerca de oito quilômetros, quando João percebeu que, lá atrás, havia a luz de um farol muito alto. Mais alguém sofria na estrada esburacada tentando alcançar a via Dutra.

- Pô, que estupidez! O cara tá vendo um veículo à sua frente... Pra quê um farol tão alto?...

Passaram-se poucos segundos e todos os passageiros foram despertados pelos gritos de João que acelerava desesperadamente, agora ignorando qualquer perigo que a estrada rudimentar pudesse representar:

- Mas o que é isto?... O que está acontecendo?...

A luz do que João supôs tratar-se de um farol alto, estava agora bem próxima à traseira do carro. Assustados, coração em disparada, tentavam distinguir alguma coisa olhando para trás, mas eram "engolidos" por aquele incrível sol às três e meia da madrugada. Olhando na direção oposta, era possível ver nitidamente a estrada, - distinguir os diferentes tons de verde do mato que a ladeava, os buracos, a cerca de arame farpado que, provavelmente marcava os limites de alguma propriedade vizinha, enfim, tudo se via, segundo João e seus amigos, com nitidez superior até mesmo à luz do mais claro dos dias.

Sempre acelerando, João e os rapazes viram, apavorados, a tal luz mudar de posição. Agora, não parecia estar atrás do carro, mas acima dele. Tudo muito rápido. Alguém dentro do carro, quase grita:

- Meu Deus! Estamos tendo um contato com algo desconhecido...

José Luís, sentado no banco de trás, leva a cabeça até junto do vidro traseiro e olha para cima:

- Não acredito! Vocês estão vendo o que eu estou vendo? Olhem! Olhem!

Com exceção de João, que só pensava em sair da estrada de barro e chegar à via Dutra para estar junto de outros veículos terrenos e ganhar mais velocidade, todos os outros ocupantes, apesar do medo, colocaram-se em posição de modo a observar melhor o que estava lá em cima, - um objeto enorme, cujo diâmetro era impossível medir, - talvez um quilômetro, talvez um quilômetro e meio -, girava frenéticamente sobre o veículo em que estavam. E embora o carro seguisse em altíssima velocidade o ovni estava sempre lá, como que parado sobre eles, na mesmíssima posição.

Havia no centro do estranho objeto um foco de luz circular e azulada, cujo diâmetro crescia à medida em que se distanciava do ovni em direção à terra.. E ao redor dele, as tais luzes poderosas que, momentos antes, quando estavam a poucos metros do chão, incidiam violentamente sobre o carro e seus ocupantes.

Inquietos, apavorados, desesperados, iam seguindo seu caminho. Vez em quando, a tal nave girava em posição contrária. Quando isto acontecia, a luz do seu centro mudava para uma cor entre o vermelho e o laranja.

- Já estamos chegando!, - gritou João, ao ver a saída para a estrada.

Nem bem terminara de dizer a frase o ovni movimentou-se em velocidade alucinante para a direita. Depois para a esquerda. Sem emitir qualquer som. O silêncio com que deslocava-se era tão ou mais assustador que as luzes. Mas nada era tão apavorante quanto o seu tamanho. Em seguida, perdeu um pouco da altura, o que fez com que os rapazes, tremendo de medo, reavaliassem suas dimensões, e tomou de novo, passando - e desta vez bem mais lentamente - juntinho ao teto do automóvel, o rumo da direita.

Este foi o momento crucial, porque todos acreditaram que a tal nave, de forma circular, iria esmagá-los contra o chão. Estavam sendo apresentados, na prática, a um novo e inequívoco conceito de poder. Mas o ovni tomou um rumo contrário aos seus temores, e foi indo, indo, até que virasse um pontinho e sumisse, apagando-se, devolvendo os rapazes agora muito bem acordados, à escuridão da madrugada que se tornaria inesquecível.

Já na Dutra, ainda se perguntavam se aquela "coisa" iria voltar. Estacionaram num posto de gasolina para ver gente e para que João desse aos joelhos a oportunidade de pararem de tremer. Olhavam-se uns aos outros e, mudos, tentavam, cada um ao seu modo, compreender o que havia acabado de acontecer. Observavam as pessoas ao redor e sentiam-se estranhamente diferentes.

Por que foi dada a eles a oportunidade de viver tal experiência?

- Por que? - é a pergunta que até hoje, trinta anos depois, os amigos não cansam de fazer.

ju rigoni (Sem registro de data.)

04/10/2008

Singular, Plural II


Detesto supermercado cheio. Mas às vezes não tem jeito. A gente tem que encarar. Foi assim no sábado. Calor infernal, lancei uma havaianas, bermuda, camiseta, chapéu, - que não há quem resista ao sol forte, e lá fui eu...

Nem bem entrei, empurrando um carrinho de compras que conseguira quase a tapa, e cujas rodas não sabiam se iam para direita ou para esquerda, e ouço um psiu, psiu às minhas costas. Obviamente ignoro. Não sou mulher de psiu, porra! Então esses psius muito provavelmente não foram emitidos para chamar a minha atenção.

- Psiu! Psiu!

Droga, que insistência!... Por onde anda o dono (ou donos) desses psius que não responde?... Coisa chata! A gente fica o tempo inteiro achando que os tais psius são para a gente.

- Ei, Ester!...

(E não é que é comigo mesmo?...)

- Pois não!
- Você não está me reconhecendo?...

Putz! Não tem nada melhor pra te qualificar como decrépita do que essa maldita frase interrogativa.

- Sinceramente, não.
- Olhe bem! Eu deixo. - A fulana colocou a mão direita na cintura e deu uma voltinha, como a desfilar numa passarela.

Alguém no supermercado, atento a ceninha insólita, lembrou-se de emitir um fiu-fiu pro mico ficar bem sacramentado.

- Olha você me desculpe, mas eu não estou conseguindo lembrar de onde a conheço...
- Sou a Luísa, trabalhamos juntas há três anos.
- Aaaaaah... Menina, como você está diferente!

"Menina", foi forte. Porque Luísa regulava idade comigo e eu já ando para muito além dos cinqüenta. Aliás, essa pessoa aí não se parece em nada com a Lu, a companheira de trabalho que a moça afirmava ser.

Enquanto ela ia perguntando pelos meus filhos e dando conta de suas novas histórias, meus olhos, já míopes, perscrutavam cada centímetro do seu rosto.

Lembro-me que da última vez que a vi suas bochechas estavam a meio-palmo, o nariz andava um tanto caído e ao redor da boca havia aquelas linhas que anunciam o pôr-do-sol. Isso sem falar do excesso de pálpebra e daqueles raiozinhos ao redor dos olhos.

- ... bioplástica, você conhece? -, consegui finalmente ouvir do que ela estava dizendo.
- Puxa! Esse negócio deve ser muito bom mesmo. Não há dúvida de que deu um up em seu rosto.
- E não apenas no rosto, meu bem -, disse ela girando o corpo e exibindo o bumbum grande e empinado que, eu lembro muito bem, não estava ali antes.
- Olha, é um espetáculo! Você entra na clínica numa segunda-feira e na quarta já sai tinindo, prontinha para uma vida totalmente nova.
- Nossa! O negócio é bom mesmo, hein?...

Devo admitir que, sem qualquer exagero, minha antiga companheira de trabalho remoçou mais de vinte anos com essa tal bioplástica. E o que mais me espantou foi o fato de que, segundo ela, não há incisões, nem descolamento de pele, nem rosto enfaixado por dias e dias, nem cabelos raspados junto à orelha, nada disso. Mais ainda: o efeito é muito natural: sem aquele estica-e-puxa que a gente vê por aí. Luísa conta que tudo é decidido e levado a efeito de modo imediato. Num computador, o médico vai trabalhando sobre a foto da paciente.

Por exemplo, para refazer o contorno da face, (colocar as bochechas no lugar), ele vai simulando as várias formas até que a paciente descubra aquilo que deseja. Aí então, após uma pequena anestesia, ele injeta numa camada profunda da pele, um troço chamado (não tenho certeza se vou escrever corretamente) metacrilato. Imediatamente após as aplicações, que duram poucos minutos, a paciente já vê o resultado ao espelho, podendo discutir com o médico uma ou outra modificaçãozinha aqui ou ali.

Caraca! Acho que meu rosto deixou claro o quanto fiquei impressionada com aquela exposição, assim, no meio da tarde, as mãos segurando o queixo, cotovelos apoiados no carrinho de supermercado. Luísa entendeu que, talvez, eu estivesse disposta a me submeter a tal intervenção estética, o que fez com que eu me acreditasse a mosca do cocô do cavalo do bandido.

-... Se você quiser, eu ligo depois e te dou o telefone do médico. Você vai adorar. Ele "passa" a maior confiança.
- Bem, querida, ficaria difícil para qualquer pessoa entregar-se aos cuidados de um médico no qual não confiasse, não é mesmo?... O papo está bom e você está realmente muito bem, mas eu preciso encarar este supermercado. O carrinho ainda está vazio. Estou conversando com você desde que cheguei...
- Ta certo! Té mais! Eu te ligo, ok? Ah, mas foi tão bom te ver...

Alguma coisa me diz que este "foi tão bom te ver" não veio de graça... Mas não me importo. Lembro-me de quão difícil era para meus companheiros de trabalho conviver com Luísa, pessoa muito ligada em amenidades e pouco afeita a qualquer assunto que a fizesse pensar. Depois fico me imaginando com aquela carinha tão mais jovem... Será que eu me reconheceria?

Passo em frente a uma vitrine da seção de eletrodomésticos do supermercado e olho meu rosto e corpo refletidos nela. Acho que eu sentiria muitas saudades de mim assim como eu sou mesmo. Talvez eu injete um botoxzinho aqui e ali... mas esse tal de metacrilato me devolveria a um tempo que, provavelmente, não tem mais muito a ver comigo.

Quanto à Luísa, talvez esteja precisando mesmo é de um metacrilato no cérebro...

Credo! Como o tomate está caro!!

ju rigoni
(sem registro de data)

21/07/2008

Peneirando Areia...




O sol nem sonhava acordar e João já estava de pé, empurrando o barco para o mar com a ajuda dos filhos mais velhos. Sempre sonhou com esse barco que era tudo para ele. O sustento, a escola, a distração, a poesia... A vida! Partia todas as manhãs como quem vai ao encontro de um tesouro, sorrindo o sorriso feliz de quem já sabe de cor o caminho e as sinas possíveis. E quando certo dia alguém perguntou se gostava do que fazia...

- Peixes são estrelas no mar. Estrelas que não brilham na noite, mas sob o sol. Estrelas ao alcance da mão. Que alimentam corpo e espírito. Não desejo para meus filhos a mesma vida, não. Eu nasci e vou morrer pescador. Não sei se gosto, ou se me habituei a isso... Mas acho que não gostaria de fazer outra coisa...

Na pequena aldeia de pescadores diziam que João era "meio pancada". Na vendinha, entre uma e outra talagada de cachaça, ele era o assunto dos companheiros.

- O João num bate bem...
- Quê isso, Zé? Ele é só um poeta. Um cara que pesca palavra junto com peixe. Bão amigo, bão pai de família...
- Tá! Mas batê bem, num bate, não... Diz que os filho vai sê doutô. Vê se pode?!... Cum aquele barquinho que ele tem... Inda se fosse uma trainêra...

Certo dia, João arranjou com o amigo Tarrafa um restinho de tinta azul. Sentou-se na areia e passou a desenhar, cuidadosamente, numa das laterais da popa do barco, as letras do nome com o qual decidira batizar seu ganha-pão.

Todo mundo achou tão engraçado! E tão lindo... Como é que o João, com tão pouco estudo, conseguia encontrar palavras tão bonitas? De onde lhe vinham, assim, com aquela precisão, com aquela harmonia, aquela beleza?...

Por aqueles dias, andava pela aldeia um certo escritor, um tal Pedro que, diziam, morava junto da pedra grande. Não demorou muito para que Pedro notasse João. Encontrou o pescador terminando de pintar o nome do barco.

- O nome do seu barco é muito bonito. Onde você o conseguiu?
- Pensando...
- Você gosta de ler, João?
O pescador riu de lado.
- Às vezes eu até leio os livros de escola dos meninos, uma folha de jornal que vem no vento... Ou embrulhando alguma coisa. Se for disso que o senhor tá falando, leio sim.
- Vê televisão?...
- Eu tinha uma tevê preto-e-branco lá em casa. Achei jogada na areia, lá pro lado das dunas. O Zé Peça consertou. Minha mulher via as tais novelas na bichinha. Eu saio muito cedo pra lida, e quando chego tô muito cansado pra ficar olhando qualquer coisa... Mas um dia a tevê parou e não teve jeito de fazer voltar a funcionar...
- Você me parece um homem muito inteligente, criativo, apesar da rotina de pescador... Fala direitinho, sem muitos erros...
- Na minha vida, aqui, na aldeia, ouço muita história... Contadas por meus companheiros de sina, por gente que vem comprar o pescado, professores e alunos de escolas que vêm até aqui conhecer a aldeia... Também aprendo muito ouvindo os turistas conversarem. Só não entendo o que os gringos falam! Mas acho mesmo que tudo que eu sei é porque tenho bons olhos, bons ouvidos, e sou muito curioso...

Ao se despedirem, João sorriu um sorriso tão tranquilo... Uma paz que deixou em frangalhos os nervos do pobre Pedro.

Enquanto o pescador sentava-se, agora para remendar sua rede, o escritor tentava remendar os próprios pensamentos. João, que lia e ouvia o acaso, era tão cheio de certezas... Não parecia precisar de mais nada que não fosse o mar. Mais nada que não fosse a imaginação. A imaginação é mesmo mais importante que o conhecimento?, - Pedro se indagava. Bem, o conhecimento nunca lhe trouxera qualquer coisa parecida com tranquilidade. Aquela serenidade que ele leu sempre nos olhos de pessoas inteligentes como João mas que, por falta de oportunidades, viviam em territórios delimitados, muitas vezes por elas próprias.

Decidiu que escreveria sobre ele. João Poeta. Sim. Este seria o nome que o pescador teria em seu conto. Quanto ao título, estava pintado em azul no barco do pescador de "estrelas". Céu no Mar.

ju rigoni (1993)



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08/05/2006

Intervalo Comercial



A mãe estava assistindo a novela das oito quando a bolsa rompeu e Arilda pode, finalmente, caminhar para a luz. Para a luz? Quando Arilda sentiu o gostinho do colostro a mãe se deliciava com uma novela.

Poder-se-ia dizer que Arilda reconhecera primeiro aquelas vozes eletrônicas. E em meio a elas a voz da mãe soava distante, estranha mesmo.

Fora assim também com os irmãos de Arilda. Não bastasse a sina, quase ganham nome de personagens dos tais folhetins, - sorte desviada pelo pai.

Arilda ia crescendo e as novelas na sala-de-estar de sua casa se sucedendo... Assim aprendeu a andar, a comer, a vestir-se, a amar, a transar, a agredir, a defender-se, a sorrir, a chorar...

Levando em conta a das seis, das sete, das oito e eventuais miniséries, ela acabou concluindo o primeiro grau em setenta novelas. O segundo em vinte. E levou mais ou menos uns cinquenta folhetins para concluir o curso de Cinema.

Passou quatro novelas estudando para um concurso público. Perdeu pelo menos quatro num mestrado.

Conheceu, namorou, noivou e casou em vinte novelas.

Trinta e cinco novelas depois já tinha três filhos.

O casamento de Arilda sofreu um abalo violento cerca de quarenta novelas depois do nascimento dos pimpolhos. O marido, que detestava novelas, arranjou uma amante. Enquanto Arilda se distraía em frente à televisão, ele curtia as delícias da cama da outra.

Arilda desconfiou da ausência constante do marido... Sempre na hora da novela das oito, - que começa quase às nove -, e houve por bem colocar em prática o que já vira em inúmeras histórias: contratou um detetive particular.

Não levou nem uma novela pra que, um dia, ela os flagrasse em pleno colóquio amoroso. Igualzinho a umas dez cenas que ela já assistira pela tevê.

Cinco novelas depois estavam divorciados, - Arilda com uma pensão que lhe permitiria, se quisesse, não fazer mais nada na vida que não fosse assistir novelas.

Ela, é claro, não estava feliz. Os folhetins sempre lhe ensinaram que não há vida sem amor e sexo. Mas Arilda embarrigara três vezes. Estava gorda, - passava a maior parte do tempo sentada diante do aparelho de tv assistindo às novelas e... mastigando. Sem parar. Pelo que ela aprendera de sedução, - todos sabemos aonde - ia ser bem difícil refazer a vida amorosa. Arilda estava muito longe do padrão de beleza das protagonistas que tanto admirava. Avaliava-se ao espelho. "Um lixo!", - era o que pensava de sua imagem.

O tempo passou. E Arilda tentou refazer o corpo para refazer a alma. Mas era praticamente impossível. Porque ela não podia viver sem novelas. E junto com elas vinha aquela necessidade avassaladora de comer pipoca, biscoito, chocolate, bala... qualquer coisa! Nem é preciso dizer quão infeliz Arilda se tornara. Nem mesmo "suas" novelas conseguiam levantar-lhe o ânimo.

Todos se lembram muito bem da Arilda...

Ontem ficaram sabendo que a amiga que viera ao mundo na primeira versão de O Direito de Nascer sofrera um infarto fulminante durante um capítulo de Cobras e Lagartos.

É... É triste mas a novela, digo, a vida continua...

ju rigoni

08/02/2006

Agonia e (Quase) Êxtase


O corpo está cansado. Exausto. E embora deitado sobre a cama, os olhos estão muito abertos... Pregados no teto. O corpo quer dormir. A mente não. Está acesa. Indócil. O corpo trabalhou muito. A mente parece ter acordado agora. Consegue estar ligada simultaneamente em vários assuntos tão diferentes entre si... Vez em quando a consciência grita "Preciso dormir!", mas é logo invadida por inúmeras outras questões tão mais importantes... O corpo quer fugir. A mente quer enfrentar. As forças de tão iguais, embora tão opostas, são imensuráveis... Mas já se passaram duas horas e a mente vai vencendo. Num golpe de mestre tira o corpo da cama e obriga-o a um passeio pelo jardim. Às três da madrugada. O ar frio, cortante, o mantem de pé. Pra lá, pra cá, passos incertos, como a marcar a cadência do pensamento... Os cães dos vizinhos latem desesperadamente. Estranham a presença tão conhecida exalando angústia. "É preciso dormir", clama novamente o corpo. A mente ignora e o leva novamente para dentro de casa. Primeiro para a cozinha. A porta da geladeira é aberta. Hummm! Presunto e queijo no pão... Mexendo a boca, quem sabe?... Depois para o sofá da sala. Ah, sentou-se sobre o controle remoto. Liga a televisão. Alguém está falando sobre um abaixo-assinado para o cupincha do "homem". Escritores, músicos, cineastas, teatrólogos, cartunistas, artistas do teatro e da tv o assinaram. "Nossa! Inacreditável..." Há uma tentativa de manutenção da atenção na notícia. Mas presunto, queijo, pão e corrupção definitivamente não combinam. Dá náuseas. Náusea também não combina com o desejo de repouso do corpo. A mente dispara por outros caminhos. Mais pessoais. Tão difíceis quanto... Novamente o corpo atende à ordem interior, levanta-se do sofá e perambula pela casa. No corredor do andar térreo todas as portas estão fechadas. Todos dormem. Inveja, geme o corpo. Alquebrado pela batalha inglória com a mente, sobe as escadas. Ao passar pela janela que encima o patamar vislumbra os primeiros raios de um sol que aí vem prometendo calor e mais desgaste físico. A mente, confusa com tanto em que pensar, nem percebe que o corpo está novamente deitado sobre a cama. Ponto para o corpo. E o tempo vai passando... As janelas ainda abertas deixam penetrar os primeiros raios de sol. Estes, por sua vez, entram pelos olhos que se rendem à luz, cerrando-se. Agora, talvez, o corpo vença. Um certo torpor, uma moleza, - os pensamentos já não se encadeiam tão rapidamente, ao contrário parecem desmilinguir-se para dar lugar a um único pensamento que também ameaça dissipar-se. Um cansaço além do conhecimento atinge também, e finalmente, o oponente. Agora parecem ser um só. Delícia das delícias... "Uuaaaaaaaaaa... Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz..."

- Prrrrrrrrrr!... Prrrrrrrrrrr!...
- Aaaalô?...
- Acordei você???

ju rigoni

Saco de Palavrões



Dia desses entrei num bar aqui perto de casa para comprar cigarros. O Ernesto estava lá, sentado, com a filha. De repente, grita para o menino que serve as mesas:

- Ô pó-de-traque! Tá fazendo o quê aí, me olhando com essa cara de bunda? Vai lá naquela merda de geladeira e me traz uma porra de uma cerveja!

Ernesto sempre foi assim. Um sujeito capaz de acomodar muitos palavrões numa única frase. Mas este não é o seu maior mérito, e sim a irritação que este seu "talento" consegue provocar em Violeta, a filha mais velha.

- Papai, por favor, dá pra falar como gente pelo menos quando estamos fora de casa?

- Vai a merda, vai Viô! Vai querer me ensinar a viver? Eu falo como quiser e quem não gostar que vá pra puta que o pariu que, no seu caso, é aquela bosta que casou comigo. Ah, se orienta!...

- Papai! Dá pelo menos pra você falar um pouco mais baixo?

- Não! Não dá. Especialmente quando eu sei que isso te aborrece. Você queria um outro tipo de pai? Pois não vai ter. Já é tempo de se acostumar com o meu jeito sacana e desbocado de ser...

- Ô pó-de-traque! Eu pedi cerveja e não xixi. Esta cerveja que você me trouxe está quente. Aproveite o design da garrafa e enfia ela no rabo. Depois me traga o que eu pedi: uma cerveja estupidamente gelada.

- PAAAAI!!!

- Vá para casa, vá Viô! Não encha o meu saco!!!

Recebo meu troco e tomo meu caminho sem nem ao menos dizer um Oi! para Viô. Além do constrangimento que seria para ela perceber que alguém que conhece presenciara a cena, eu correria o risco de "disparar" mais meia hora de uma conversa recheada de palavras de baixo calão naquela "coisa" sem botão de off que a menina chama de pai. Que cruz!...

Credo!!!

ju rigoni



"[...] é permitido a todo indivíduo que tenha consciência da verdade regularizar sua vida como bem entender, de acordo com os novos princípios. Neste sentido, tudo é permitido [...] Como Deus e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo tornar-se um homem-deus, seja ele o único no mundo a viver assim." - F. Dostoiévski - O diálogo com o demônio (in Irmãos Karamazov, 1879)


Nascido no Vão Central

O homem pára o automóvel no vão central da ponte Rio-Niterói. Sai do carro sem pressa. Tem o cuidado de trancar o veículo. Agacha-se junto a ele. Tira os sapatos. Sobe na mureta. Abre os braços, olha para o céu e se lança no vácuo que o separa da morte.

Os carros freiam e as pessoas saltam para olhar, curiosas, o homem que escolhera encarar os 70 metros que separam a mureta das águas poluídas da Baía de Guanabara. Nada vêem. O homem desapareceu como surgiu. Tudo muito rápido. Tudo muito limpo. Sem senões...

A polícia chega e já investiga a placa do carro e seu interior. No porta-luvas, uma caixa de lenços de papel, um revólver calibre 38, uma flanela, um blister contendo aspirinas, um maço de cigarros, um isqueiro, duas canetas, um bloquinho. Vazio. Nem uma palavra.

No console, as fotos de duas crianças sob os dizeres "Não corra, papai." Pendurado no espelho retrovisor um chumaço de cabelos louros amarrado com fita cor-de-rosa e um sapatinho tricotado em lã azul-bebê. No banco do carona uma garrafa com água mineral sem gás pela metade, que o policial destampa e cheira, e uma bolsa, tipo pochete, com o fecho aberto e vazia.

- Provavelmente ele colocou todos os documentos no bolso..., - reclama o policial.

No chão do carro uma bola colorida de criança e um pé de sapato feminino. No banco de trás, um "surrado" Dostoiéviski e uma agenda que o policial, sem nenhum cuidado com as impressões digitais, vai folheando em busca de alguma pista imediata.

- Droga! Não é dele. Parece a agenda de uma adolescente...

Lá em baixo, já está uma lancha com homens mergulhando em busca do estranho suicida. Aqui em cima, os monitores da ponte obrigam o trânsito a fluir para evitar o engarrafamento que já vinha se formando em razão da mórbida curiosidade.

O reboque vai chegando e o policial parece ter, finalmente, encontrado alguma coisa, bem debaixo do assento de motorista, - um bilhete escrito em letras de forma.

"Este carro não me pertence. Eu o roubei para chegar até aqui. O Dostoiéviski é meu."

O policial lê e relê o bilhete num interminável coçar a cabeça...

- Ô Antenor!... O que é dosto... Dosto-i-é... Dostovisqui... Ah, deixa pra
lá! O cara devia ser doido. Isso deve ser nome de alguma droga que a gente
ainda não conhece ...


ju rigoni


Uma Cena

As luzes, todas elas, convergiam para o casal junto à cama. Aqui, na escuridão, jaziam o diretor, dois assistentes de direção, o iluminador, os assistentes de iluminação, dois maquiadores, um assistente de figurino, dois cabo-man, a camareira da atriz, e mais quatro profissionais que não consegui identificar.

O silêncio era silêncio. Ouvia-se apenas as instruções do diretor ao casal. Este se movia no ritmo dos mandos e desmandos dele:

- Olhem bem um nos olhos do outro. Vocês estão apaixonados. E finalmente estão sós. Não vão perder tal oportunidade. Fulana, tire lentamente o robe. ENTREGA, fulana. Eu quero ENTREGA TOTAL. Você está com cara de quem está com fome...

Provavelmente a atriz, a fulana, estava mesmo faminta, pois essa cena estava sendo gravada pela oitava vez e, a julgar pela expressão do diretor, seria ainda refeita algumas vezes. Fulana começava a despir-se com tal desenvoltura... Meu Deus! O diretor diz que não é assim que ela deve abrir o robe, soltar as alças e deixar cair ao chão a camisola.

- Isto está muito mecânico...

Fulana começa a reclamar.

- Olha, eu não sei mais o que você quer. Já tô de saco cheio de gravar esta cena. Não é possível que já não haja material para editá-la a contento...

- Ôpa, ôpa, ôpa! Você acha que eu estou aqui até essa hora sem comer só para ficar vendo você tirar e vestir essa maldita camisola? Eu tenho mais o que fazer...

A essa altura, o ator já se deitou sobre a cama, a aguardar que os ânimos se acalmem e ele mesmo possa ver-se livre desta cena que -, a fulana tem razão -, já deu o que tinha que dar. Fulana e o diretor fazem o gênero temperamental e, a gente sabe, dois bicudos não se beijam. Minto. Neste caso atriz e diretor vão muito além dos beijos e, desde que o mundo é mundo, a gente sabe que a intimidade é uma merda!

Fulana tem uma vida rastreada por fotógrafos e jornalistas, por isso a gente sabe também que, embora o affair com o diretor exigente, ela usa na mão esquerda um anel que ali foi colocado quando se casou com um certo figurão. Fulana não tinha uma vida tão imaculada assim. Até chegar ao altar e casar-se para usufruir regalias que nunca conhecera submeteu-se a outros papéis nada agradáveis. Hoje em dia ela até tira a roupa diante das câmeras, mas os papéis para os quais é escalada não se parecem em nada com as pontinhas baratas que a levariam a lugar nenhum.

O diretor está ciente do que tem em mãos. Literalmente. Fulana fora escalada quando o marido, agora amargando uma prisão especial, pedira pessoalmente o lugar de protagonista para ela. E não houve como dizer não. Ele dispensara uma excelente atriz, com a qual já estava apalavrado, abrindo espaço para Fulana. Prometera a si mesmo que, já que não havia outro jeito, transformaria a atuação de Fulana em trabalho digno de premiação. Empenhado nessa empreitada acabou se envolvendo com a mulher muito além do que gostaria.

Cicrano, o ator que agora contracenava com Fulana, pensara em desistir do papel quando soube que teria que contracenar com ela. Mas não é todo dia que ele pode participar de um trabalho com tantos profissionais de gabarito. Por isso, e apesar de Fulana, lá estava, com a barriga roncando, jogado na cama do cenário, esperando que o milagre acontecesse.

A voz possante do diretor serviu para acordá-lo.

- Vamos lá, pessoal! Tudo de novo... Cicrano colocou-se de pé, passou rapidamente as mãos nos cabelos para mantê-los despenteados como a cena o exigia. Fulana já estava bem à sua frente....

- Atençããão... Ação!

Fulana refez a cena mais onze vezes. Cicrano assim, tão pertinho, já sabia de cor cada pedacinho do corpo de Fulana. Ao dar por encerradas as gravações daquele dia, foram distribuidos os textos para as próximas cenas e o diretor informou que havia decidido gravá-las dois dias depois.


Cicrano chegou cedo. Ia ser mais um dia daqueles e ele não estava disposto a ouvir repreensões de quem quer que seja. Mas no estúdio havia um grande burburinho.

- O que está havendo? - perguntou à maquiadora.
- Fulana foi espancada pelo marido e vai ficar de molho por um bom tempo...
- O que você está me dizendo?... Mas ele não estava preso?
- Saiu ontem. Dizem que chegou em casa e pegou Fulana na cama com um amigo...
- Eita, que esse "roteiro" está me saindo melhor do que o que estamos filmando...
- Estávamos! Diante dos acontecimentos a produtora cancelou o projeto.


ju rigoni



Praceando...

Importante era viver. Intensamente. Tanto assim que ele já fora boy, sorveteiro, administrador de empresas, bicheiro, advogado, engenheiro, e tudo que a malandragem permitisse. Vendera automóveis, maconha, chiclete, avião, caneta, e navio. E estivera em muitas partes do mundo, inclusive num presídio. No momento, cismava sentado num banco de praça, à sombra de uma árvore, ávido por novas emoções. O olhar,- um radar-, girava tentando captar onde estaria o início de uma nova aventura.

Viu a igrejinha no centro da praça. Pedintes e beatas contritas. Ao redor, homens montando barraquinhas e moleques que pendiam dos galhos das árvores próximas amarrando fios repletos de bandeirinhas coloridas.

- A noite vai ser de festa...-, pensava. E deve ter considerado essa possibilidade durante algum tempo. Mas descartou-a porque continuava a olhar à sua volta.

Um vira-latas passou correndo atrás de um gato e a meninada ao redor da
carrocinha de pipocas agitou-se.

- Pega! Pega!

O gato,- um raio! -, atravessou meia praça, alcançou o coreto e sumiu entre as pernas dos músicos de uma bandinha que afinava os instrumentos para o ensaio.

Os acordes da primeira marchinha fizeram-no rir. A música trazia à lembrança um de seus golpes favoritos. Ele adorava quando o confundiam ou comentavam sua semelhança com Chico Buarque. Vez por outra, em nome da picaretagem, arriscava até um parentesco. Isso quando não tentava passar pelo próprio. As mulheres choviam...

- Você também compõe?
- Assim, assim...
- E canta?
- De vez em quando...

E elas em coro, o tom quase choroso:

- Ah, canta umazinha, canta?...

Ele não se fazia de rogado e soltava a voz para desespero de suas ouvintes que, ao primeiro agudo, descobriam que o "primo Chico" era bem melhor.

Aqui, na praça, o som que o cheiro do churrasquinho provocava em seu estômago estava em total descompasso com a música da bandinha. E não poderia ser de outra forma, pois ele não comia desde o dia anterior. Andara "aprontando" numa cidadezinha perto daqui e, na pressa de fugir, abandonara o produto do serviço. Resultado: estava com fome e sem dinheiro.

Chegara ontem à noite. Dormira no mesmo banco onde está sentado agora. Acordara com o som das tesouras aparando a hera do jardim.

A barriga voltou a emitir aquele som curto e grave, e a mocinha sentada no banco em frente sorriu para ele, que reconheceu nela dezenas de outras mocinhas. Por isso, é claro que, apesar do desconforto, ele sorriu de volta.

Mutreteiro de fé, é preciso admitir que era um homem bonito! Facilidade de comunicação, charme, e uma expressão carente que, ao primeiro contato, fazia despertar nas mulheres o instinto maternal. Macaco velho, toda vez que encontrava alguém que o agradasse, armava logo a cara do filho sem mãe. Como por exemplo agora. E como a moça insistia em sorrir, levantou-se devagar, (para não assustar a presa!), andou lentamente até o banco onde ela estava e sentou-se.

Não se sabe o que disse a ela. Mas comeu pipoca, tomou sorvete, devorou churrasquinhos no espeto, andou na roda-gigante e, à noite, na festa da paróquia, ele e a moça eram apenas mais um casal passeando de mãos dadas, trocando beijinhos e juras de amor, - que ele não era bobo e não ia deixar aquela pracinha fora das suas histórias mal-contadas!!!

ju rigoni



Singular, Plural...

Deve acontecer com todo mundo. É uma situação terrivelmente constrangedora encontrar alguém de quem não se consegue lembrar o nome. Toda vez que isso acontecia Ester sempre achava que tinha alguma coisa a ver com o fato de haver passado dos cinquenta.

Não tem muito tempo estava sentada na areia da praia, bem pertinho de onde quebravam as ondas do mar, e lá vem uma moça, muito bonita, que não lhe parecia estranha, andando em sua direção. Embora, a familiaridade fisionômica, virou o rosto em direção ao mar e continuou em suas eternas contemplações. Mas o afundar de passo-pós-passo na areia não deixou dúvidas. Era com ela.

- O que há? Não fala mais com os amigos?

Ester olhou diretamente para a recém-chegada, perscrutando cada detalhe daquele rosto, fazendo a maior força para lembrar o nome...

- Olá, como vai? Sabe como é... tava aqui pensando na vida.
- E como estão os filhos?...
("Ai, meu Deus, eu também vou ter que perguntar por alguém da família dela?")
- Eles estão bem. Na verdade, ótimos. Todos às voltas com os estudos.
("Preciso tentar fazer com que me dê uma dica preu lembrar o nome dessa cristã...")
- E você o que me conta de novo?
- Só o meu casamento...
- Ora... casou-se?
- Ainda vou casar. Foi até bom te encontrar porque quero o endereço pra enviar um convite.
("Meu Deus, quem é essa mulher? Eu sei que a conheço bastante. Por que não consigo lembrar?...")
- Mas, é claro. - E enquanto busco papel e caneta na bolsa de praia, sigo outro caminho para tentar desvendar o mistério.
- Faz tempo que a gente não se vê, hein?...
- Nem tenha dúvida. Da última vez foi no aniversário do Bob, lembra? Eu fui com uma turma enorme, - o Roberto, o Claudinho, o Anselmo, a Dina...
("Iiiih! Eu me recordo dessa festa. E lembro dessa turminha também. Só não consigo me lembrar dela...")

- É mesmo. Foi um festão aquele!

A amiga sem nome inclina a cabeça e proteje os olhos que observam além dos
ombros de Ester...

- Essa que está vindo aí não é uma de suas filhas???

Ester olha imediatamente na direção indicada como quem busca um salva-vidas.
("Ai, meu jesus! Que bom! Minha filha há de lembrar-se... Serei salva!")

- Oh, sim. É a minha filha.

Laura já vem chegando.

- Oiiiiii!, - cumprimenta, - há quanto tempo, hein...
- Puxa, você está a mesmíssima coisa. Não mudou nadinha desde a última vez em que a vi.
- Bem, não posso dizer o mesmo de você, - diz Laura sorrindo.
("Por que? O que ela vê que eu não vejo?")

A amiga sem nome exibe um sorriso quase cúmplice para Laura. Ester percebe que, (salvo engano), desde que chegou, Laura olha para a sua amiga "de infância" com um ar de surpresa capaz de competir apenas com o seu constrangimento pelo fato de estar até agora conversando com "uma grande amiga" cujo nome não recorda. E o papo segue, cheio de intimidade, (era certo que ela sabia bastante sobre a sua vida e a de Laura), mas sem revelar uma única dica que permitisse a Ester chamá-la pelo nome, ou construir conceitos acerca dos penduricalhos de sua árvore genealógica. Nada!

- Nossa! Olha lá o amigo que veio comigo à praia. O papo está ótimo, mas vou ter que deixá-las para ir ao encontro dele. Vou pegar uma carona e ele vai embora daqui a pouco.

("Ufa! Que alívio...")
- Que pena! Nem deu pra gente conversar muito...
- Pois é! -, exclama a ainda anônima amiga "de infância" distribuindo beijinhos em nossas faces com a maior intimidade e já refazendo a trilha na areia.
- Beijos, meninas! Quero vê-las em meu casório, hein?...
- Tá legal! Vamos ficar aguardando o convite formal.

Ester e Laura entreolham-se de modo cúmplice, aguardando a distância necessária as primeiras observações.

- Mãããe?! Que coisa surpreendente!, diz Laura.
- Como assim? Eu estou aqui, em cólicas, esperando que você me revele o nome desta minha amiga, que tão bem nos conhece, e de quem eu não consigo lembrar de jeito nenhum...
- Tá doida, mãe? Não é amiga.
- Nããão???
- Não. É amigo.
- Como assim?, - repito a expressão do momento, enquanto Tico e Teco tentam dar início a um processo qualquer de reconhecimento de território para colocar as coisas em seus devidos lugares.

- É o Lula, mãe! Nosso amigo lá do salão de beleza...

Sabe aquelas animações virtuais onde toma-se o rosto de uma pessoa e rapidamente vai-se trocando os tipos de cabelo, nariz, boca, roupas etc?... Ester ficou mais ou menos assim por alguns segundos até que...

- Claro! Gente, eu adoro o Lulinha. Sempre adorei esse amigo. Eu sabia que ele era homossexual, mas não tinha idéia de que o fato provocasse mudanças tão radicais em sua vida. Não foi só uma opção sexual... Nooossa, eu tinha tanta coisa pra dizer pra ele, depois de todo esse tempo sem nos ver... Ai, que mico! Eu não consegui fazer essa conexão. Não me lembrei de jeito nenhum...
- Mãe, você sempre teve uma bola de menos... Acho que ele nem notou.
- Ah, que pena. A gente sempre trocou tanta figurinha lá no salão... E ele ficou uma mulher bem bonita, hein? Não dava mesmo pra reconhecer... Não tinha mais pomo de adão, não tinha mais a voz grave... será que ele tirou o pênis também?... Uuuui! Só de pensar me dá um nervoso... Ele é corajoso mesmo, hein? Tem que ser muito homem pra isso... Mas que ele ficou uma mulher muito linda, não há a menor dúvida... Ou ela? Eu nem sei como é que o meu amigo prefere que o chamemos agora...

Laura ri das inseguranças da mãe.

- Você também, hein Laura... Podia tê-lo chamado pelo nome uma única vezinha. Assim alguma ficha caía, aqui dentro, na minha cachola...
- Eu hein, mãe! Como é que eu vou chamar de Lula uma pessoa que mudou de modo tão visceral? Eu poderia até ofendê-lo! Eu sei lá qual é o nome dele agora...
- Ah, a gente se conhece bastante, amor. Ele não ia ligar não. É um homem muito inteligente e sensível. Aí... Já tô chamando ela de ele outra vez...
- Mãe, você não existe!
- Bem, já que o nome eu só vou saber mesmo quando o convite chegar, que tal um mergulho?

ju rigoni



Sutileza e Poder
(Baseado em história real)

N.A. Os nomes que aqui aparecem foram trocados para evitar outros "toques" sutis.

A sala estava na penumbra. A noite estava próxima e, ao fim da reunião, ele,
pessoalmente, deu-se ao trabalho de apagar a maioria das luzes.

Agora, estava sentado à cabeceira da longa mesa retangular, - que ainda exibia copos, xícaras, cinzeiros repletos de pontas de cigarros, e rabiscos sem importância, abandonados sobre os blocos postos à frente de cada lugar.

- Boa noite dr. Midas! Podemos?...

Como não houvesse resposta, Rosa, a supervisora do pessoal de limpeza, fez um sinal à outra moça para que também entrasse, e iniciaram ambas a arrumação da sala que se dividia em dois ambientes: este, onde permanecia pensativo, apático, o poderoso Midas Albuquerque, largado sobre a cadeira de espaldar alto, que fazia com que ele parecesse mais baixo do que era; e o outro lado do grande cômodo, que guardava sua mesa de trabalho, sobre a qual estavam o celular, - como sempre desligado -, e o lap-top.

Na lateral da mesa o micro, a impressora, alguns documentos espalhados, e a foto mais recente dos três filhos. Uma outra foto, - a da esposa, sorridente e com ares esportivos - , estava sendo colocada de volta ao seu lugar pela moça que acabara de tirar-lhe o pó.

Sobre a estante, livros conviviam com um micro-system, muitos cds, alguns dvds, uma TV, um vídeo.

Diligentes, as moças se esforçavam para deixar a sala limpa e arrumada sem incomodar o patrão.
- É um saco quando a gente tem que limpar com eles dentro...", resmungava Rosa, baixinho. E ligando o aspirador:
- dr. Midas, vamos precisar fazer um pouquinho de barulho...
Rosa pensou ter ouvido ele dizer qualquer coisa. Olhou em sua direção, mas como sempre, ele estava lá, a pensar, pensar, e ela imaginou que nem mesmo uma banda conseguiria o milagre de arrancá-lo dos pensamentos.

Um rapaz empurrou a porta de entrada, para deparar-se com aquela cena de puro non-sense: o dr. Midas sentado à cabeceira da mesa de reuniões, mão no queixo, imóvel, olhar estático, - parecia em alfa -, Rosa a recolher copos, cinzeiros e xícaras, enquanto a companheira sugava a poeira -, tudo ao som de um aspirador de pó profissional.

O recém-chegado, - na verdade um office-boy que fora incumbido de alertar o dr. Midas sobre o avançado da hora, bem que tentou, mas viu que era inútil chamar por ele dali, da porta.

Entrou, chegou bem perto.
- dr. Midas? dr. Midas? O senhor pediu para lembrar o horário do jantar com o senador...

Midas continuava imóvel. O boy, cauteloso, continuava tentando.
- dr. Midas? O jantar com o senador..., tá na hora..., dr. Midas?
E nada...

Rosa olhava de soslaio a aflição do rapaz, um moreno de quase dois metros de altura e muitos músculos que, neste instante, sacudia uma das mãos para cima e para baixo, em frente aos olhos do dr. Midas, para ver se o tirava do transe.

"Esse homem quando pensa entra em coma".

A companheira de Rosa desligou o aspirador, exatamente no momento em que, espremido sob o peso da responsabilidade de lembrar ao dr. Midas o importante compromisso, recomeçava a chamar por ele, desta vez em tom de súplica:
- dr. Midas? O senhor vai perder o jantar... dr. Midas? O senador...
Os olhos de Midas finalmente situaram-se. O rosto endureceu, crispou-se.
Pôs-se de pé e olhou na direção do funcionário.

- Por que está gritando deste jeito? Está achando que eu sou surdo???
O grandão arregalou os olhos sem entender absolutamente nada.
- ... se é preciso fazer todo esse barulho só para me lembrar a hora de um jantar?... Não sabe bater à porta?...

O garotão, entre surpreso e incrédulo, não conseguia articular palavra ou gesto, enquanto o poderoso Midas Albuquerque colocava o celular, ainda desligado, no bolso, pegava o lap-tope saía da sala resmungando.
- Era só o que me faltava...

O office-boy moveu-se, então. Andou até a cabeceira, e caiu na cadeira, onde minutos antes estava sentado o patrão. Apoiou o cotovelo na mesa e o queixo na mão. E ficou lá... Perdido. Imóvel, estático.

Rosa e sua companheira, que a tudo presenciaram como se lá não estivessem, olhavam penalizadas para o rapaz.

- Coitado!, lamentou a companheira de Rosa, enquanto ligava o aspirador-, desta vez sem que precisassem pedir licença para terminar a limpeza da sala.

ju rigoni